segunda-feira

ALÉM DO ADORNO

Por Juliana Paviani

“Não é só um sentimento transmitido em forma de imagem. Não é somente a representação do belo. A Arte pode ser feia sim (isso é uma questão de gosto), mas pode dizer e ensinar muito mais do que uma linda paisagem. Arte é ciência, é técnica, é uma prática que foi pensada com cuidado por alguém com um desejo irresistível de reestruturar a si próprio e ao seu meio ambiente de forma “ideal”. Por isso seu verdadeiro valor deve ser difundido (começando dentro da sala de aula) para que todos possam saber que ela possui um lugar de importância no desenvolvimento do ser humano e que o preconceito que hoje existe, possa com o tempo ser dissipado”

- Que curso você faz mesmo? – me perguntou um amigo.
­- Artes Plásticas – respondi.
- Puxa, eu fico preocupado com que tipo de trabalho você vai poder realizar depois que acabar essa faculdade...
Apesar de ser apenas um comentário de um amigo preocupado e sem intenções de ser preconceituoso, este reflete um pensamento bem comum a respeito da Arte. Alguns a encaram como se ela não tivesse utilidade prática, cuja hierarquia no currículo situa-se nos mais baixos degraus na escala das disciplinas a serem ensinadas. Por isso se preocupam com aqueles que decidem fazer dela sua profissão.
O conceito de ensino da Arte como adorno firmou-se quando tal conhecimento foi inserido nos programas de escolas para moças da alta classe nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do séc. XX e, posteriormente no Brasil. Difundiu-se a idéia de que o estudo da Arte “ameigaria o caráter”, refinaria a sensibilidade da mulher, além do que, através da prática da Arte, ela assimilaria “os princípios elementares da estética, tão úteis á vida feminina. O fato de ter sido produto, inicialmente, de uma classe dominante, fez com que a visão sobre a Arte fosse tida como um luxo dos ociosos já que se privilegiava a inspiração, o dom, a sensibilidade imediata enfim, conceitos vagos que se opõem á prática do racional, da aprendizagem e do trabalho. Infelizmente, ainda que de forma implícita e inconsciente, as pessoas têm essa mesma sensação, de que a prática artística não contribui como aprendizado, é desprovida de qualquer caráter utilitário e que não há futuro promissor nesta área. Acreditam que ela serve apenas como decoração, apreciação (embora não deixe de ser), se limitam a vê-la como um conjunto de objetos bonitos, se esquecendo que ela é uma das formas que temos para expressar movimentações da nossa vida interior, embora também signifique mais do que exprimir o que um indivíduo tinha em mente num certo momento. É preciso fazê-las entender que a inspiração para tais produções pode ser adquirida, que o dom não existe (ou estaríamos presos ao que, supostamente, nosso Ser Supremo nos concedeu) e que a sensibilidade é construída. Utilizando os meios adequados e inserindo-os nos meios onde se difunde conhecimento a arte poderá cumprir seu papel no desenvolvimento do ser humano.
Por que afinal, qual é o objetivo das instituições ao difundirem conhecimento? Não é desenvolver a formação intelectual do aluno? A formação de sua personalidade? Torná-lo apto a ver e discutir problemas? Como qualquer outra disciplina, as Artes têm seus meios de ajudar a construir este ser, porque contribui para o desenvolvimento e amadurecimento de sensações que as imagens provocam. Os estudantes que adquirem mais profundamente informações sobre Arte tomam contato com um dos aspectos mais ricos e significativos da produção humana em todos os tempos. Já que só se pode saber como e do quê vivia o Homem, (numa época onde não havia como perpetuar suas idéias) por meio da sua atividade criadora. Sua integração é importante para uma melhor avaliação e desenvolvimento de processos mentais, de percepção, imaginação para captar a realidade ao seu redor, desenvolvimento do senso estético, da capacidade de observação e critica e encoraja o processo criativo para mudar ou transformar a realidade. Por esses motivos não se pode dizer que existe criança-artista. A Arte requer bem mais do que sentir, ela requer ferramentas intelectuais e técnicas que são mais profundas do que “talento” e emoções. E deste modo as suas contribuições também serão profundas já que este conhecimento os acompanhará em qualquer área da sua vida.



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