Por Kelly Bonasoli
No Brasil, as idéias de Merleau-Ponty influenciaram o manifesto Neoconcreto que veio de encontro com o formalismo advindo da Gestaltheory no Concretismo paulista. Em Clark e Oiticica o neoconcretismo buscava uma arte mais próxima da vida, através de experimentações, recusavam o elitismo artístico, a monotonia da repetição, as soluções plásticas, a obra passiva de contemplação. Os artistas neoconcretos compreendiam a obra de arte como:
(...) quasi-corpus, isto é, um ser cuja realidade não se esgota nas relações exteriores de seus elementos; um ser que, decomponível em partes pela análise, só se dá plenamente à abordagem direta, fenomenológica. Acreditamos que a obra de arte supera o mecanismo material sobre o qual repousa, não por alguma virtude extraterrena: supera-o por transcender essas relações mecânicas (que a Gestalt objetiva) e por criar para si uma significação tácita (M. Ponty) que emerge nela pela primeira vez.[i]
Nesse período, a subjetividade nas etapas de produção e recepção da obra de arte abriu espaço para a fenomenologia do sensível. Foi marcada pela intuição, expressão, empirismo, experimentação, de forma onírica e sensorial, abandonando os meios tradicionais da arte. O observador foi incorporado à obra, através do toque e da manipulação.
Dentre corpos mutáveis, organismos essencialmente ativos, peças que se deformam, emerge-se a desmaterialização e liberação do suporte, da parede, do chão, do teto, incitando ao manuseio do objeto surge o não-objeto.
A expressão não-objeto não pretende designar um objeto negativo ou qualquer coisa que seja o oposto dos objetos materiais com propriedades exatamente contrárias desses objetos. O não-objeto não é um antiobjeto, mas um objeto especial em que se pretende realizada a síntese de experiências sensoriais e mentais: um corpo transparente ao conhecimento fenomenológico, integralmente perceptível, que se dá à percepção sem deixar rastro. Uma pura aparência.[ii]
Esse objeto existe enquanto o espectador atuante na obra o manipula, interage, vivendo de maneira potencializada a condição humana de ser-no-mundo. Segundo Oiticica, a obra não é mais objeto de simples contemplação transcendental, o espectador manipula, participa da obra de forma sensorial. O individuo a quem chega à obra é solicitado a complementação dos significados propostos na mesma, é uma obra aberta.
A obra Caminhando, de Lygia Clark é um marco na participação ativa do espectador. Para sua construção corta-se uma fita de Moebius[iii] continuamente, assim ela se desdobra em entrelaçamentos cada vez mais estreitos e complexos. Ao cortar o espectador realiza a obra, faz escolhas, opta por caminhos, direções; experimenta um espaço sem lado avesso ou direito, frente ou verso, uma forma continua, surpreendendo a percepção, que concebe o mundo com uma determinada configuração. A experiência não se encerra nela mesma, caminhando continua sempre no gerúndio, permanece infinitamente acontecendo. Fazendo um paralelo com a fenomenologia de Ponty, a obra acontece no presente, no passado recente e no futuro próximo. Essa experiência é incompleta porque o fim pode se dar a qualquer momento e é característico dessa obra permanecer aberta. Lygia:
Recusa a classificação em categorias estéticas ou estilísticas, porque incompatíveis com a sua poética de desrepresentação, de superação dos suportes, de deslocamento do privilégio do olhar para uma ampla percepção sensorial, de integração do corpo na arte e da arte do corpo coletivo. A experimentação e a sensibilização que propõe são estímulos a investimentos libidinais e ao engajamento corporal do público; distante de qualquer propósito esteticista e visando a desalienação do espectador e a desmistificação da arte e do artista.[iv]
Com essa possibilidade de abertura das obras Lygia trabalha com a ambigüidade entre estrutura e abertura, que são dois conceitos contrários e complementares e novamente pode-se perceber o quão próximo Clark estava das idéias de Ponty. A obra é aberta a manipulação do espectador, mas limitada pela sua forma. “É da dialética entre o individuo e a obra que nascem os significados, e é no corpo como aparato de percepção e significação que essas relações são reveladas.”[v]
Somente o observador tem condições de explicitar como se deu sua relação com a obra de arte e que interpretações agregou ao objeto, porque cada indivíduo possui uma experiência particular com a obra. A obra, por sua vez, tem certa autonomia, pois em contato com o mundo, novos significados são adicionados e ela passa a ser agregada por esse mundo.
[i] GULLAR, F. Manifesto Neoconcreto.
http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/manifesto_neoconcreto.shtml?porelemesmo, acessado em 21/04/2009.
[ii] GULLAR, F. Teoria do não-objeto.
http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/teoria_do_nao_objeto.shtml?porelemesmo acessado em 21/04/2009
[iii] De acordo com o site http://inorgan221.iq.unesp.br/quimgeral/moebius/moebius.html, a fita de Moebius é uma superfície de duas dimensões com um lado só.
[iv] MILLIET, M.A. op Cit. p. 14.
[v] MILLET M.A. op Cit. p.92.
segunda-feira
EXPERIMENTAÇÃO NO NEOCONCRETISMO
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