segunda-feira

ALFABETIZANDO VISUALMENTE, O PERCURSO DO ARTE EDUCADOR

Por Camila Noering

Ao nascer abrimos os olhos. Depois do choro este seria um dos primeiros sentidos que ativamos, e mágico, nos permite estabelecer o mecanismo de comunicação antes mesmo da fala. Desde a infância, interagimos com as manifestações culturais de nossa ambiência e aprendemos a demonstrar nosso prazer e gosto por imagens, músicas, histórias, jogos, uma pessoa e outra. Gradativamente vamos dando forma ao que chamamos de “repertório”, que vai permear durante toda nossa vida, nossas maneiras de agir, admirar, julgar, e principalmente de fazer. É por isso que mesmo sem saber, nos educamos esteticamente, no convívio com as pessoas e as coisas.
A arte tem função indispensável na vida das pessoas e da sociedade, desde os primórdios da civilização, o que a torna um dos fatores essenciais de humanização.
Vivemos num mundo permeado por imagens, que são instrumentos comunicantes e artísticos, por isto da necessidade de nos alfabetizarmos visualmente, a leitura de mundo que fazemos, é precedida da linguagem escrita, da leitura da palavra. “A obra gráfica reflete a capacidade do homem para transmitir a beleza, sensações e sentimentos. As suas formas adaptaram-se às correntes plásticas imperantes em cada momento histórico, e toda a implicação pessoal. O artista está consciente de que o nível de iconicidade depende do grau de realismo e de que coincidência ou similitude reside em sua efetividade. Neste caso a escrita comporta-se como uma subcategoria o que implica uma justaposição dentro da mensagem. Possui autonomia, não se insere na leitura visual totalizadora, origina um distanciamento por parte do espectador.
Mesmo se por vezes o artista utilize dialeticamente esta separação como um recurso que fala mais para o intelecto do que para o sentimento.” (RUIBAL)
Mas para que serve aprender arte?Arte, (em latim: ars, artis, vem de ágere, e significa agir) é criação do homem, nasce de sua ação. Com o passar dos anos recebeu conotações diferentes, assim como o artista, que, diante da sociedade, foi sendo visto conforme os conceitos da época e os ditames da história. É uma área de conhecimento como qualquer outra, e como tal, tem conteúdos específicos que são trabalhados, (ensinados e aprendidos), pelo arte educador juntamente com seus alunos. A arte possui várias funções, entre elas o fazer artístico, a história da arte e a apreciação ou fruição artística. Segundo Ana Mae Barbosa: “Por meio da arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo ao indivíduo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada.” (BARBOSA, 2003,P.18).
E quanto aos arte educadores? Que caminhos devem traçar para que possam transmitir aos seus alunos subsídios adequados para que não se tornem analfabetos visuais?
Nem sempre artistas plásticos são arte educadores, assim como professores de artesanato também não o são.
Professores de arte devem possuir em sua formação, habilidades manuais, para que possam transitar e ensinar várias linguagens, conjugados aos conhecimentos de natureza intelectual e cultural. A universidade, responsável pela formação de arte-educadores, encontra-se emaranhada pedagogicamente.
Por um lado, prioriza-se o ensino para a criança, mas esquece-se que se está falando a adultos, que devem desenvolver o processo criativo, expressivo e comunicativo, a fim de “compreender”, no exercício da profissão, o que a criança faz “plasticamente”. Por outro lado, outros radicalmente dão ênfase à arte pela arte, não abrindo espaço para assuntos pertinentes as crianças. Caberia então à Filosofia da Educação apontar os princípios, que determinem uma educação mais eficiente. Mestres de arte educação já foram vistos como profissionais encarregados de uma tarefa que não deveria ser levada a sério. Com o surgimento de novas teorias a respeito do funcionamento do cérebro, decorrentes da descoberta de novas tecnologias aplicadas à medicina e à psicologia, contribuiram para que a questão da expressão artística fosse vista sob novas luzes. O questionamento da supremacia de disciplinas escolares como a matemática e a expressão escrita e oral sobre aquelas ligadas as artes tem feito com que as últimas sejam valorizadas e vistas com mais respeito em nosso sistema de ensino.(OSINSKI, 2001, P.102, 103).
Ao incluir a gramática visual (que compreende a análise e observação de imagens produzidas por artistas, bem como aquelas abundantes em nosso cotidiano, veiculadas pela propaganda bem como embalagens e cartazes), estamos associando o fazer artístico aos conhecimentos históricos e estéticos. O arte educador possui ferramentas de inestimável tecnologia em suas mãos, como o advento da internet, pode apresentar em apenas um clique todo o patrimônio artístico da humanidade aos seus alunos. Podendo colocá-los em constante comunicação, prostrando-os diante de todo tipo de imagens, artísticas ou não. Obras de arte, por exemplo, só se completam quando da participação do espectador, que absorve a experiência artística do artista juntamente com as suas.
Através da observação de imagens os alunos criam imenso acervo mental (observação esta que vem acompanhada da reação da mente, acionando o sistema afetivo, desencadeando outras sensações e percepções, que levam ao sentimento), adquirindo a capacidade de reconhecer seus autores, através do estilo de suas pinceladas, formas, cores, etc.; bem como, por meio do ato de “expressão artística” criar seus próprios escorços, esculturas, independente da cópia, pois são perfeitamente capazes de associar o conhecimento aprendido nas aulas de arte com suas experiências pessoais.
Mas além do conhecimento dos professores de artes, temos que levar em conta o espaço físico onde são oferecidas as aulas de artes visuais. Não existe nenhum tipo de fruição criativa em um ambiente insoso, onde as paredes cinzas (sala de aula comum), não oferecem nenhum estímulo aos alunos, bem como ambientes poluídos demais, apertados, bagunçados. O ambiente ideal para o arte educador é aquele em que ele pode transitar em meio aos seus alunos, com amplas mesas de trabalho, pias para higienização do material, paredes forradas com trabalhos dos alunos, murais e cartazes feitos pelo professor contendo lâminas com diversas imagens de diversos períodos, bem como a respectiva indicação, (para q o aluno absorva aquele material naturalmente).
O professor de artes deve estar colocando seus alunos perante as imagens sejam elas artísticas ou não, constantemente, sem deixar de lhes passar conhecimento e referencial histórico adequado. Deve lhes dar a oportunidade de perceber e promover conversas sobre, escolhas de cores, gostos pessoais, cenas, forma, etc . Deve ter flexibilidade suficiente para perceber os interesses de seus pupilos, sua experiência com a prática artística é considerada de grande importância para que a troca de experiências se realize naturalmente.
A arte pode ser ensinada porém nem sempre compreendida, como nas palavras de Picasso à respeito de Les Demoiselles d´ Avignon: “Todos querem compreender a pintura, Por que não tentam compreender o canto dos pássaros?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário